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#040 - Espiritualidade e Negócios

Atualizado: Mar 16

Espiritualidade e negócios são palavras que, num primeiro momento, parecem desconfortáveis na mesma frase. Espiritualidade lembra religião (embora não o seja) e negócios lembra trabalho (embora também não o seja) e isso torna a composição mais desafiadora. E a grande pergunta que se faz: espiritualidade e negócios podem caminhar juntos?


Se a palavra trabalho vem a tona há que se dar um novo significado a ela. A palavra trabalho vem do instrumento de tortura tripalium e que inspira uma boa parte das pessoas que veem no trabalho seu momento de tortura. Já imaginou 35 anos sob tortura?


Entretanto e sobretudo, a palavra laborare dá um outro significado, onde o trabalho vem acompanhado da oração, da ação de orar (orare) enquanto se cria e constrói algo, como se o ato de trabalhar fosse, em si e per si, um ato de oração quando o ser está lá onde se trabalha. Colaborar é trabalhar com e em conjunto.





Abrimos duas trilhas pelas quais vamos caminhar.


O trabalho criativo evoca o sentido do ser, o propósito maior e de onde vem a gratuidade de se trabalhar. É como um sentimento de voluntariado por uma causa a qual se faz sua por sua própria escolha. Nada é mais poderoso do que um coração voluntário.

Você se lembra de um dia ter trabalhado de uma forma na qual você estava lá 150%? Usando todo os seu talento e nem vendo o tempo passar? Por certo, você estava sendo movido por um propósito maior e talvez nem tenha se dado conta disso.


É essa gratuidade que move mães na arte da maternidade, líderes na arte de liderar e todos aqueles que são quando estão fazendo algo que visualizam obter (a mística do SER – FAZER – TER). E ao fazer enquanto são ou ser enquanto fazem, tal ação se torna audível por todos, de onde se pode dizer haver a oração. Uma ação quase que audível.


O que é uma missão corporativa que não uma oração organizacional? Não orada, por certo, mas o é. Da mesma forma, uma missão pessoal pode ser vista como uma oração pessoal que mantem a pessoa em seu alvo, do qual ela é sempre estimulada a sair. Dai pecado. O que é o pecado se não errar o alvo? Mas como errar um alvo que uma boa parte das pessoas sequer o sabem ter?


Em diversos fóruns dos quais participo costumo perguntar: quem sabe quem quer ser, fazer ou ter daqui a dois anos? 95% das pessoas não sabem essa resposta. Ou seja, não têm um alvo. É bem verdade que o alvo é uma justificativa, pois o grande crescimento se dá no caminho, não no objetivo.


E por não ter um alvo, uma meta ou por não saber o porquê fazem as coisas em seu trabalho e qual a sua contribuição, as pessoas veem o trabalho como uma tortura. E rezam para chegar a sexta feira. Veja como a reza e a oração estão, sim, presentes nas empresas. Só que de uma forma talvez equivocada. Daí o sentido de trabalho torturante, aquele que mantem a pessoa no local de trabalho mas longe de sua essência.


As empresas estão preocupadas com suas taxas de absenteísmo, ou seja, o percentual de tempo que o trabalhador está ausente, faltando ao trabalho. Mas o problema não é o absenteísmo, mas o presenteísmo, ou seja, o percentual de tempo que o trabalhador está na empresa, mas não É na empresa. Ele está com seu corpo presente, mas a alma está vagando em algum site na nuvem. Literalmente.


Talvez o ambiente corporativo enseje uma atmosfera de competição baseada numa lógica perversa que diz que para vencer precisa-se destruir o outro. Um certo nível de ambição é importante e produtivo, entretanto há que se cuidar para não virar cobiça ou ganância e cegar o propósito do labor. Talvez haja um clamor para mudar a qualidade da ambição. Uma ambição que proporcione o fortalecimento do indivíduo, para que este se torne altruísta e deixe um legado, ao invés de construir um ser individualista, que se torne egoísta e deixe herança.


A qualidade da ambição será diretamente proporcional ao que se deseja acumular. Competição ou cooperação?


Atesto que mais importante do que fazer negócio é ter uma escuta atenta e demorada acerca da maneira de se fazer negócios, onde quem faz negócios não é a empresa, mas as pessoas, pois delas se fazem os relacionamentos.


Esse talvez seja o grande ativo das organizações humanas capazes de gerar riqueza e prosperidade sustentável: relacionamentos.


Daí a espiritualidade estar intrinsecamente dentro dos negócios.

Mas engana-se quem pensa que espiritualidade é algo para apenas pensar ou sentir. Mas para viver em atos diuturnos onde, nela, haverá o céu e o inferno.

De acordo com Leonardo Boff “Deus não está presente apenas nas coisas ridentes. Ele também está na dor. Deus está presente tanto na cruz quanto na ressurreição”.

Isso é brilhante, pois qual não é a transcendência humana que é capaz de transformar a dor em amor. Isso é construir a grandeza.


E é disso que pessoas são feitas. Amor e medo, dor e prazer, aceitação e rejeição, ameaças e oportunidades.

Por isso, uma regra de outro nos negócios: 1o a equipe – liderança 2o o caminho – estratégia 3o a ação – gestão


Então surge uma nova ordem organizacional onde se convida para o centro das conversas não só as competências organizacionais, mas acima e sobretudo as competências espirituais de onde nasce o QS, quociente espiritual como terceira inteligência, descendente do QI, quociente intelectual e do QE, quociente emocional.


Diferentemente do que outros autores mencionam, Dom Abade Mathias informa: “a espiritualidade não uma das dimensões humanas, mas perpassa todas as dimensões humanas”. Daí ser impossível não haver espiritualidade nos negócios. Nosso trabalho pode ser de apenas mudar o sinal de negativo para positivo, mas ela está lá como está em todas as coisas, lugares e pessoas. “Convidado ou não, Deus está presente, sempre” segundo Jung atestou em muitos dos casos que ele tratou, principalmente nas pessoas que estavam rumando para uma reta final.


E aí todos somos convidados a trazer a tona o líder que há em cada um de nós.


Sobre o papel da liderança, Padre Contiere atesta: “O bom líder é aquele que está a serviço das aptidões das pessoas que estão a serviço do negócio que está empenhado em realizar as necessidades das pessoas. É aquele que desperta no outro a vontade de participar, que liberta e não aprisiona”.


E arremata: “o verdadeiro salário é aquele que desperta a pessoa para fazer o que é sua vocação e talento. Não o quanto ela recebe pelo que faz”.


Daí a importância da liderança em inspirar os trabalhadores para algo além do salário, pois é cruel trocar a vida por um salário e o salário por contas. Falo isso por já ter estado lá.

E para ir terminando, quero te lembrar que a espiritualidade perpassa as demais dimensões humanas e daí quero contar a pequena histórias dos três operários que, ao serem perguntados sobre o que faziam, responderam:

O 1o: empilho tijolos O 2o: levanto paredes O 3o: construo catedrais


O centro que está em mim me faz ver a centralidade que está em todas as coisas, tal qual Michelângelo, que via a obra dentro do bloco de pedra, por ela, a obra, já estar dentro dele.

Eu te digo a verdade: se sua visão é apenas baseada no conhecimento, como a minha foi por anos, verás apenas o que seus olhos conseguem ver. Se sua visão for mais aprofundada, verás o centro de todas as coisas, de onde se extrai a beleza.


Portanto, espiritualidade e negócios andam juntos se assim o homem tiver isso como valor.

E disso vem a constatação quase científica e totalmente espiritual de que o trabalho é belo.


Boa jornada!

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